1.10.19

Travamo-nos de razões de áreas em dois triângulos com um ângulo em comum

Tomamos 2 retas concorrentes - a,b - quaisquer - e chamamos A ao seu ponto de intersecção. No caso da nossa ilustração essas retas são a=AB e b=AC, i.e, pode fazer-se variar as retas por qualquer deslocação de algum desses pontos A, B ou C. Tomamos ainda dois pontos D, E que podem deslocar-se livremente um em a e o outro em b: a=AD e b=AE
Consideramos os triângulos ABC e ADE com um vértice A comum e, nas condições descritas, com BÂC = DÂE.

Se deslocar qualquer dos pontos B,C,A,D,E obterá novos triângulos e verá que a ilustração leva-nos a conjecturar que a razão das áreas dos triângulos ΔABC e ΔADE assim definidos é igual à razão dos produtos dos dois lados de extremo A de cada um desses triângulos |AB|.|AC| de ΔABC e |AD|.|AE| de ΔADE, ou seja,
    Área de ΔABC                |AB|.|AC|
      ------------------     =     -----------------
    Área de ΔADE                |AD|.|AE|
  1. Pode provar esse resultado?
  2. e encontrar vários enunciados diferentes para apresentar problemas equivalentes a este?

Given two triangles having one vertex A in common, the other vertices being situated on two straight lines passing through A. Prove that the ratio of the areas of these triangles is equal to the ratio of the products of the two sides of each triangle emanating from the vertex A.

in I.F. Sharygin. Problems in Plane Geometry. col. Science for Everyone. MIR. Moscow:1988

12.9.19

continuar a restaurar as construções para a vida do visível e andar em linha

Ando a arrumar papéis e num deles dei de caras com o seguinte e eterno problema: muitos dos papéis (deteriorados) vão para reciclagem e neles há enunciados impressos que não queremos perder.
Por exemplo:
1.
Numa linha desenhámos vários pontos vermelhos. Entre cada par dos pontos vermelhos desenhámos um ponto verde. E entre cada ponto verde e cada ponto vermelho desenhámos um ponto azul. No final, contámos um total 85 pontos. Quantos pontos vermelhos desenhámos?
2.
Um turista realizou um percurso em 4 dias. No primeiro dia ele fez 20% de todo o percurso mais 2km. No segundo dia ele fez 50% do resto do percurso mais 1km. No terceiro dia realizou 25% da restante parte do percurso mais 3km. No quarto e último dia percorreu os 18km do percurso. Quantos km percorreu o turista na sua caminhada?
O que fazer?

9.5.19

Mohr-Mascheroni


António Aurélio Fernandes, o (há mais tempo) crítico e nunca satisfeito militante deste jovem :-) blog, tem sistematicamente levantado dúvidas (que todos acompanhamos) sobre velhíssimos problemas relacionados com o que sejam os teoremas de construção usando tão só cada uma ou as duas ferramentas euclidianas - régua (recta: dois pontos distintos) e compasso (circunferência: dois pontos tomando um deles para centro da circunferência e o outro um ponto dela, 3 pontos distintos não colineares).

Para António Aurélio Fernandes, com a devida vénia a Howard Eves, traduzimos (muito provavelmente mal e transcrevemos do seu livro Fundamentals of Modern Elementary Geometry.Jones and Bartlett Publishers. Boston:1972; pp 130 e 131) o excerto

"(3.5.3 Teorema de construção de Mohr-Mascheroni. Qualquer construção euclidiana, para a qual os elementos dados e necessários são pontos, pode ser realizada somente com o compasso euclidiano.
Numa construção euclidiana, cada novo ponto é determinado como uma intersecção de duas círcunferências, de uma linha reta e uma circunferência, ou de duas linhas retas, e a construção, por mais complicada que seja, é a sucessão de um número finito desses procedimentos."

Nota à margem:
Podemos falar só de compasso por termos provado já que os compassos euclidiano e moderno são equivalentes, como pode verifiar por esta construção ilustrativa da equivalência.

Nos passos de 1 (dados A,B e O)até 5, é utilizado exclusivamente o compasso euclidiano (circunferência definida por dois pontos dados, um deles para centro e outro sobre a circunferência), para determinar a circunferência de centro O e raio AB. No passo 6, utiliza-se o compasso moderno: a ponta seca do compasso (vermelho) em A e a outra ponta em B, AB transportado para O, definindo desse modo a cirunferência de centro em O e raio AB - um só passo- que coincide com a circunferência antes obtida em 5 passos.

Compasso euclidiano Compasso moderno
2O(A), A(O) 4 C(B), D(B) 6O(AB)
3O(A).A(O)={C,D} 5 C(B).D(B) = {B,E} O(AB)=O(E)?
OA=OC=OD BC=CE, DB=BEAB=OE?
ΔADO e ΔCAO equiláteros e ΔDBE isósceles sendo CD a reta das suas alturas, OABE é um trapézio de bases DA e BE isósceles .....AB=BD=DE=EO ----> AB=OE

"É então suficiente mostrar que apenas com um compasso moderno somos capazes de resolver os seguintes problemas:
  I. Dados A, B, C, D, encontre os pontos de intersecção de A(B) e C(D).
 II.Dados A, B, C, D, encontre os pontos de intersecção de AB e C(D).
III.Dados A, B, C, D, encontre o ponto de intersecção de AB e CD.
É de notar que a nossa prova do Teorema da construção de Mohr - Mascheroni é mais do que uma mera prova de existência, pois não só mostramos a existência de uma construção que utiliza apenas o compasso euclidiano que pode substituir qualquer construção euclidiana, mas mostrando como tal construção pode realmente ser obtida a partir da construção euclidiana dada. Deve-se confessar, no entanto, que a construção resultante usando apenas o compasso euclidiano seria, com toda probabilidade, muito mais complicada do que o necessário. A tarefa de encontrar uma construção "mais simples", empregando apenas o compasso euclidiano, ou mesmo apenas o compasso moderno, é, em geral, muito difícil, e requer considerável engenho ao solucionador."

Sobre estes problemas: I. é óbvio e II. e III. foram resolvidos em entradas recentes, que pode consultar. Esperamos que A.A. Fernandes aceite o facto de já termos feitos uma demonstração (exactamente a via escolhida por Mascheroni)"

Lembramos as entradas relacionadas as questões construtivas que se levantam ao Teorema de Mohr-Mascheroni: 12.01.14: Instrumentos euclidianos
14.1.14: O compasso moderno a partir do postulado. A existência por construção.
16.1.14: Com régua e compasso euclidianos, transferir distâncias
14.01.19: Determinar os pontos de intersecção da reta AB com a circunferência (C,CD), usando só o compasso moderno.
15.01.19: Determinar os pontos de intersecção de uma reta que passa por dois pontos dados A,B com uma circunferência de que são dados o centro C, incidente em AB, e um dos seus pontos D.
24.01.19: Dados os pontos A,B,C,D determinar os pontos de intersecção das rectas AB e CD recorrendo unicamente ao compasso moderno

20.4.19

Polaridades: Problemas já resolvidos com régua só.


Numa entrada publicada em 23/04/2007: Polar de um ponto em relação a duas rectas e Polar de um ponto em relação a uma circunferência apresentavam-se noções e problemas interactivos (em CaR) de construção só com régua que deixaram de ser vistos por razões que nos ultrapassam e que nos têm obrigado a fazer reparações e transferências desse trabalho para geogebra (por exemplo, como é o caso destas). A determinação da polar(lugar geométrico dos conjugados harmónicos de pontos - aqui relativamente a duas rectas e a círculos)- são aqui apresentadas

1. Polar de um ponto em relação a duas rectas concorrentes


2. Polar de um ponto em relação a uma circunferência
a) polar de um ponto exterior ao círculo

b) polar de um ponto do interior do círculo
Aproveitamos para apresentar a solução com recurso ao quadrilátero inscrito de diagonais a passar por P,[ para além do normal processo de quadrilátero completo qualquer, para dado P de AB (secante do círculo) determinar o ponto P' de AB tal que (PP'AB)=-1].

22.3.19

Problemas de construção só com régua


Nas últimas entradas, tratámos os problemas de construção só com compasso. Tudo o que fazemos com a régua e o compasso, podemos realizar só com o compasso.
O Teorema de Construção Mohr-Mascheroni fixa essa possibilidade.
Será que conseguimos resolver todos os problemas de construção de régua e compasso só com régua? Também já abordámos (de forma dispersa) problemas da resolução só com régua. Há problemas de régua e compasso que podem resolver-se só com régua, mas não todos. O simples problema de determinação do ponto médio entre dois pontos distintos não pode ser resolvido só com retas. (Teorema de Construção Poncelet-Steiner)
Seguindo H. Eves, no seu livro Fundamentals of Modern Elementary Geometry, voltaremos a essa história, mas para já abordamos um problema que podemos resolver porque nos é dado o ponto médio de dois pontos da reta da qual queremos determinar (construir) uma paralela a passar por um ponto a ela exterior



Primeiro Problema só com régua:
Dados quatro pontos A, B, C, D, sendo C o ponto médio de AB, com recurso exclusivo a uma régua, construir a reta que passa por D e é paralela a AB.


Sigamos passo a passo a seguinte construção interactiva
  1. de que nos são dados os quatro pontos e a reta a.


  2. Traçamos as retas b = AD e c = BD.
  3. Tomamos um arbitrário ponto E distinto de D e incidente em b = AD
  4. Traçamos as retas d = CE e f = BE e o ponto F = c.d
  5. Traçamos a reta e = AF
  6. que corta a reta f = BE em G = e.f
  7. A reta g = DG é a paralela a a = AB que procurávamos
A afirmação final é suportada por não termos feito mais que construir um quadrilátero completo e, no quarteto harmónico ABC...H este último ponto de intersecção das retas a e g ser o conjugado harmónico de C que, por C ser equidistante de A e B, obrigaria H a ser um ponto equidistante de A e de B que, não sendo C, é um ponto no infinito.

............... CA . A............H = CB . B...........H...............





No próximo problema, não é dado o ponto o ponto médio de qualquer segmento da reta AB e, em vez disso, temos uma circunferência e o seu centro.

Segundo Problema:
Dado um círculo com o seu centro (O), uma reta AB e um ponto P não incidente em AB, usando unicamente retas (régua), construir a reta paralela a AB que passa por P.


Utilizamos o problema anterior para superar a falta do ponto médio de um segmento de AB.
Qualquer reta que passe pelo centro de uma circunferência corta-a em dois pontos extremos de um diâmetro que é um segmento de reta de que temos o ponto médio O e, por isso, podemos tirar por P uma paralela a um qualquer diâmetro. Se os diâmetros não forem paralelos à reta AB ... veremos, na construção dinâmica que se segue, passo a passo, deslocando o cursor n que pode tomar valores de 1 a 13, como determinar um segmento de AB e o seu ponto médio.
  1. Apresenta-se a reta AB e o ponto P a ela exterior e
  2. uma circunferência com seu centro (O)
  3. Uma reta que passa por O e corta a circunferência em R,S sendo RO=OS. E determinamos a paralela a RS que passa por P. Pode deslocar R sobre a circunferência e assim ver o que se passa com as diversas retas a passar por O
  4. Escolhida uma reta RS não paralela a AB, a paralela a RS que passa por P terá um ponto C em comum com a reta AB
  5. Tomada uma outra reta UV a passar por O, pelo mesmo processo, tiramos por P a paralela a ela que,
  6. não sendo paralela a AB, com esta terá um ponto D em comum.
  7. Por C, tiramos agora uma paralela a UV e
  8. por D uma paralela a RS, obtendo um ponto Q de intersecção destas duas últimas retas.
  9. Obtivemos desse modo um paralelogramo PCQD e em consequência um ponto M intersecção das suas diagonais e tal que CM=MD.
  10. Sendo este último ponto M equidistante de dois pontos C e D, podemos determinar o conjugado harmónico de M relativamente a C, D
  11. e a reta vermelha paralela à reta AB ou CD que passa por P, solução do problema de construção proposto.

Howard Eves. Fundamentals of Modern Elementary Geometry